Edição anterior: #001 (15 Dezembro 2025)
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Para meus netos.
Os pequenos perguntam "por quê?" sem parar.
Os maiores me desafiaram a escrever.
Todos, cada um do seu jeito, me lembram
por que vale a pena continuar perguntando.
Este MiniLivro é culpa de vocês.
Você está recebendo algo diferente hoje.
Há alguns dias comecei a mandar estas newsletters sobre inteligência artificial. A ideia era simples: compartilhar o que aprendo testando ferramentas, comparando modelos, errando e acertando. Muitos de vocês acompanham.
Nesse caminho, algo inesperado aconteceu. Uma pergunta da minha neta — "Quais foram as perguntas mais estranhas que você fez para a IA este ano?" — me levou a um lugar que eu não esperava. A IA devolveu um mapa das minhas hesitações. Mostrou padrões que eu não tinha consciência de repetir. Virou espelho.
Isso mudou o livro que eu estava escrevendo. Alguns de vocês sabem que estou há um ano trabalhando num livro sobre liderança. Mais da metade estava pronto. Mas o conteúdo, embora não estivesse errado, estava deslocado: era um manual de respostas num mundo que precisa reaprender a perguntar.
Decidi mudar de direção. Em vez de um livro tradicional, vou publicar uma série de textos curtos — MiniLivros — aqui mesmo, para vocês. Este é o primeiro: "A Resposta é o Problema".
A conexão com IA continua. É ela que me força a fazer perguntas melhores. É ela que expõe quando minhas perguntas são preguiçosas. É ela que me mostra o que vale e o que só parece bonito.
Boa leitura.
— PP
Existe um vício silencioso que atravessa empresas, carreiras e vidas: a pressa de responder.
Responder rápido virou sinônimo de competência. Perguntar demais virou sinal de fraqueza. O resultado? Decisões que parecem sólidas — até quebrarem. Estratégias construídas sobre premissas que ninguém testou. Carreiras inteiras navegando por mapas desatualizados.
Este texto propõe uma inversão incômoda:
A resposta, muitas vezes, é o problema.
Não porque respostas sejam ruins, mas porque respostas prematuras — dadas antes das perguntas certas — criam uma ilusão de progresso que paralisa o pensamento real.
Perguntas certas mudam uma vida. Mudam uma empresa. Mudam decisões que pareciam irreversíveis. Mas perguntas certas exigem algo raro: a coragem de sustentar o desconforto de não saber — por tempo suficiente para que algo verdadeiro emerja.
Nos últimos anos, passei a conversar diariamente com modelos de inteligência artificial. Testo, comparo, provoco. E descobri algo que não esperava: a IA funciona como um espelho de aumento.
Diante de perguntas vagas, modelos avançados devolvem respostas bem escritas, convincentes — e erradas. A máquina não corrige sua pergunta. Ela apenas amplifica o que você pediu. Se a entrada é preguiçosa, a saída é enganosa.
A qualidade do que a máquina devolve não depende da sofisticação do algoritmo. Depende da clareza da pergunta. E isso me forçou a encarar algo desconfortável: eu não estava perguntando tão bem quanto pensava.
Um dia, uma pergunta simples de alguém mais jovem mudou minha perspectiva: "Quais foram as perguntas mais estranhas que você fez para a IA este ano?" Eu perguntei. O resultado foi um tapa na cara.
A IA não listou dúvidas técnicas. Ela organizou um mapa das minhas hesitações — e revelou um padrão que eu não tinha consciência de repetir. Uma pergunta aparecia de formas diferentes, em contextos diferentes, ao longo de meses:
"Isso resolve de verdade ou só parece bonito?"
Eu não sabia que fazia essa pergunta com tanta frequência. Mas ela estava lá — em decisões de negócio, em projetos pessoais, em escolhas de viagem. A IA devolveu, sem julgamento, o critério que eu usava sem perceber: a busca obsessiva por separar valor real de cosmética.
Mas o espelho mostrou algo pior: esse padrão não era exclusividade da minha interação com máquinas. Era o mesmo vício que eu tinha visto, por décadas, em salas de decisão.
Existe um script invisível no mundo corporativo: fechar rápido é virtude, questionar é risco. Adultos experientes correm para proteger conclusões antigas, encerrar o desconforto do silêncio, parecer resolutos. Perguntar virou exposição. Responder virou armadura.
As decisões mais frágeis que presenciei não nasceram da ignorância. Nasceram do excesso de certeza prematura. Pessoas inteligentes, com dados na mesa, que não fizeram a pergunta óbvia — porque fazer pareceria admitir que não sabiam.
Um caso ficou gravado. Dois grupos de acionistas, sócios e concorrentes, tentando resolver o futuro de uma empresa. Seis, sete horas de reunião. Propostas, contra-propostas, impasses. Ninguém cedia.
No fundo da sala, uma intuição incômoda: algo não fechava. Não era o valor, não era a estratégia. Era algo mais básico. Fiz a pergunta que ninguém tinha feito:
"De que moeda vocês estão falando?"
Silêncio. Depois, a resposta: um lado falava em moeda local. O outro, em dólares. Estávamos de acordo há horas — e ninguém tinha percebido.
O negócio fechou em minutos. A pergunta que destravou tudo era tão simples que dava vergonha. Mas ninguém tinha feito — porque parecia básica demais para uma sala com tanta gente importante.
Se perguntas têm esse poder, quais perguntas importam? Depois de anos testando, errando e observando, identifiquei quatro categorias que mudam destinos:
Todo ambiente tem respostas pré-aprovadas. A pergunta que escapa do script é aquela que ninguém esperava — e que revela o que estava escondido sob a superfície polida.
Um exemplo banal, mas revelador: trabalhando com inteligência artificial, percebi que todos os documentos que a ferramenta gerava tinham exatamente o mesmo tamanho. 39 kilobytes. Sempre. Perguntei: "Por que todos têm 39 KB?"
Ninguém pergunta isso. É uma pergunta de engenheiro paranoico — ou de alguém que não aceita padrões sem explicação. Não era importante em si. Mas esse tipo de pergunta, aplicada a coisas importantes, é o que separa quem entende de quem só repete.
São as perguntas óbvias demais, constrangedoras demais, ou perigosas demais. Todo mundo pensa, ninguém verbaliza. Quem faz essa pergunta em voz alta muda a conversa.
Em certa idade, você acumula medicamentos. Médicos diferentes, prescrições que se somam, ninguém questionando o conjunto. Um dia, perguntei ao meu médico: "Preciso realmente tomar todos esses ou dá para eliminar alguns sem prejuízo?"
É a pergunta óbvia que pacientes não fazem — porque parece desafiar a autoridade médica. Mas é exatamente a pergunta certa. E a resposta, muitas vezes, é: "Podemos revisar."
São perguntas eliminatórias: "Isso é crítico ou é burocracia?", "O que acontece se não fizermos?", "Quem estamos protegendo ao não decidir?" Elas transformam medo em cálculo.
Uma empresa formada por várias aquisições: marcas diferentes, sistemas diferentes, processos que não conversavam. Mais de três mil funcionários operando em ilhas. A solução técnica era clara: unificar tudo num sistema integrado. O problema era o tempo. Consultores propunham dois, três anos de implementação.
A pergunta que mudou tudo: "Em três anos, o mundo ainda vai ser o mesmo? Clientes, mercado, país — tudo muda. Ou fazemos em menos de um ano, ou não vale a pena."
A segunda pergunta, mais incômoda ainda: "Alguém já fez isso no mundo?" A resposta veio em uma semana: uma empresa menor, nos Estados Unidos, tinha feito. Menor, mas fez.
"Se eles fizeram, por que nós não podemos?"
Nove meses depois, num único dia, desligamos todos os sistemas antigos. No dia seguinte, era só o novo. Milhões economizados. Três mil pessoas operando como uma empresa só. Viramos referência.
São as que você evita porque a resposta pode doer. "Nós realmente sabemos fazer isso?", "Estou aqui pelo motivo certo?", "O que eu finjo não ver?" São perguntas de travesseiro — aquelas que você faz de madrugada, quando não há plateia.
Aos vinte e dois anos, estudante que já trabalhava, comprei uma empresa. Gerava caixa, parecia perfeita. Em oito meses, o investimento estava quase pago. Tudo funcionava — até que parou de funcionar.
O negócio dependia de uma pessoa. Uma só. Quando ela saiu de cena — acidente, hospital, um ano fora —, descobri que eu não tinha tempo, não tinha experiência e não tinha estrutura para segurar. Veio o roubo, vieram os prejuízos, vieram as dívidas. Ladeira abaixo.
Meu pai, que tinha sido contra desde o início, fez a pergunta que eu evitava: "Onde você quer chegar?"
Vendi. Perdi quatro anos de economia. Levei mais um ano pagando dívidas. Mas ganhei as melhores lições da minha vida: foco, disciplina, cercar-se de quem sabe. E a clareza de que meu caminho não era empreender — era liderar dentro de estruturas maiores.
A pergunta que meu pai fez economizou anos de insistência no caminho errado. Se eu tivesse feito antes, teria economizado mais.
Mas perguntas sozinhas não bastam. Existe um momento em que a análise precisa parar — e a resposta precisa vir.
Nem toda resposta nasce de dados. Algumas vêm do fundo — daquele lugar onde experiência, intuição e algo difícil de nomear se encontram. A pergunta certa muitas vezes desbloqueia uma resposta que já estava lá, esperando ser reconhecida.
A intuição não é mágica — é o banco de dados de todas as perguntas que você já teve a coragem de responder no passado.
No caso do sistema implementado em nove meses, a intuição veio antes da validação: "Se demorar três anos, não vale a pena". Não havia planilha que provasse isso. Era um senso construído em décadas vendo projetos longos morrerem de obsolescência antes de nascer.
A pergunta — "alguém já fez?" — não criou a intuição. Ela a testou. E quando a resposta confirmou que sim, alguém tinha feito, a intuição ganhou permissão para virar decisão.
A boa pergunta não substitui a intuição. Ela a refina. Ela separa o palpite do pressentimento fundado.
Eu estava escrevendo um livro sobre liderança. Mais da metade estava pronto. O conteúdo não estava errado, mas estava deslocado: era um manual de respostas num mundo que precisa reaprender a perguntar.
Continuar seria confortável. Também seria intelectualmente desonesto.
Este texto — e os capítulos que seguem — nasce dessa ruptura. Não é um manual. É uma exploração. Uma tentativa de mapear as perguntas que fazem diferença, os mecanismos que nos impedem de fazê-las, e o que acontece quando temos coragem de sustentá-las.
A pergunta que carrego comigo é simples: "O que realmente merece minha energia daqui para frente?" As respostas vão mudar. A tecnologia vai mudar.
Mas a capacidade de sustentar uma pergunta incômoda por tempo suficiente para ela revelar algo — isso não muda.
É a única vantagem competitiva que não se automatiza.
E você? Qual pergunta está evitando fazer hoje?
Sua opinião ajuda a moldar os próximos!
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